Disforia (parte 1)

Marquei na minha lista de compromissos que iria começar este blog e hoje criei coragem.
Atualmente o assunto que mais vagueia em minha mente é disforia e não consigo para de pensar o que diabos vou fazer da minha vida para acabar com estas divagações, então começarei com algumas experiências pessoais para tentar desabafar e organizar meus pensamentos.




Minha primeira tentativa de autocastração foi aos 12 anos de idade, com uma faca de cozinha. Obviamente como covarde que era, desisti assim que comecei a sangrar pois imediatamente comecei a pensar em como que iria explicar isso para meus pais. Aliás, aí esta uma coisa importante de frisar. A necessidade de dar satisfação para a família foi  um dogma que tornou minha disforia uma experiência ainda mais tortuosa. Naquela época, eu não imaginava que sentimento terrível era esse. Porquê diabos eu queria tanto me livrar das minhas partes íntimas? Junto com a puberdade, este sentimento de dúvida e auto-questionamento aflorou de forma mais intensa. Meu corpo se modificava a cada dia, e como boa cristã que era, acreditava que estava doente por não aceitar as mudanças. Coloquei na minha cabeça, que seria um homem, que traria orgulho ao meu pai e que apagaria esses pensamentos da minha cabeça para sempre. O que eu não conseguia admitir é que estes pensamentos jamais se extinguiriam, ficando guardados em um limbo na minha mente durante anos para esporadicamente virem a tona como a personificação de uma personagem inventada por mim em uma tentativa frustrada de me separar de mim mesma. Sofia era  como assinava meus desenhos e cartas adolescentes que mandava para mim mesma na tentativa de aplacar a solidão causada por amigos hostis e uma família indiferente à minhas reais necessidades. Cada pessoa deste passado distante, tinha uma ideia fixa do que eu deveria ser e tinham planos, projetos, sempre esperavam algo de mim, e como entidade passiva que sempre fui, a simples ideia de decepcionar alguém me parecia algo terrível. Com o tempo fui percebendo que na realidade a decepção era inevitável, pois mesmo tendo um trabalho fixo, pagando as contas em dia e sendo o orgulho da família a decepção sempre estaria ali para me assombrar, uma decepção muito pior do que todas as decepções juntas era a decepção que eu tinha comigo mesma. Eu odiava tanto tudo aquilo que meus pais e meus amigos haviam me transformado que passei a não me importar mais com minha vida. Odiava cada pedaço da minha própria existência. A partir daí foram anos de autodestruição que quase resultaram na minha extinção, porém sempre que me encontrava sozinha enxergava Sofia do outro lado do espelho, sofrendo, gritando por liberdade. Este sujeito que dava orgulho aos patriarcas era um alcoólatra, um viciado, um infeliz que odiava sua profissão e seus amigos. Era uma bomba relógio, pronta para se atirar do topo daquela edificação em ruínas construída por todos, menos ela mesma. Daniel se suicidou diversas vezes dentro da própria cabeça. Sua existência era somente desespero, e ninguém podia convence-lo do contrário.

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Continua


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